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Vermelho e passional como sempre. Mas alivado pela leveza do branco. O RB está de volta.
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Segunda-feira, Maio 24, 2004
a última canção
(ou sobre lost in translation)
Ela sabia desde a primeira vez que ouviu que aquela era a música lenta da despedida. Ficou por ali, querendo partir, mas sem saber por onde começar. Mas ir embora não tem começo. É só levantar. Precisa nem olhar para trás. Acontece que ela estava imóvel. Os únicos músculos que conseguia mexer estavam na face, faziam-na chorar. Ela também respirava. E ainda havia o coração, que batia. E o descer de lágrimas, o vai-e-vem do peito e as batidas do seu coração se misturavam aos acordes daquela canção. E tornavam-na mais bela e mais triste. À sua volta, ela procurava qualquer coisa em que pudesse acreditar. Ela queria crer. Mas prova nenhuma não havia. Nem beijo, nenhum bilhete, uma chamada perdida no telefone, uma fotografia, uma pista sequer. Ela não tinha nem nada para levar consigo. Enquanto percebia, se levantava. Mas ela ainda não queria.
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11:52 AM
by Bonina
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Quinta-feira, Maio 20, 2004
à espera do Dia misericordioso
Dizem que se chama Ausência e que sente uma dor, eternamente, mas sem saber onde. Dizem que, às vezes, ela sente assim como se escorresse por dentro e não parasse mais. Então ela senta, senta e espera a saudade passar. Dizem que é como se ela tivesse um vazio, mas isso ninguém nunca viu. Quando era menina, amava as Manhãs de Sol. Acordava antes delas, todos os dias, e corria para o jardim à espera dos primeiros raios. Brincava de sol durante toda a manhã, até que as onze-horas trouxessem o prenúncio do meio-dia. Conhecia cada pedra das Manhãs de Sol, e brincava de catalogá-las. À noite, ansiosa, não dormia. Solidária, contava as estrelas que rasgavam o céu em busca das Manhãs - pensava ela. Acontece que um dia, o Dia, pai de todas as Manhãs, exigiu da menina um beijo. Um beijo em troca das Manhãs de Sol. Mas ela não queria, aquele beijo, não queria. Dizem que ele ficou muito bravo. De castigo, ele lhe deu a lua para tomar conta. Fê-la jurar que ela, a lua, jamais despencaria do céu. Se se quebrasse, ele as mataria, as Manhãs de Sol, uma a uma. Agora, todas as noites, dizem que ela chora com as estrelas, agarrada à lua, à espera do Dia misericordioso em que possa, outra vez, ver as manhãs de sol. E talvez brincar com elas.
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11:48 AM
by Bonina
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Segunda-feira, Maio 17, 2004
uma vez na vida, por favor, diga o que se quer ouvir
(para o galego, chato, que fica me perguntando porque não escrevo)
faça o que você achar melhor. era sempre assim que começava nela uma certa tristeza. o que ela achava melhor? era ficar com ele. mas aquela frase era sempre permeada por um "sozinha", que ficava subentendido nas voltas dos as e os mal pronunciados, e pareciam gritar nas palavras que ela queria não ouvir. mas é que mulher tem essa coisa de dobrar as camisas do marido quando ele viaja, só para sentir perto dele. mas, não, eles não podem perceber isso... faça o que você achar melhor é assim, se ela ficar é problema dela, se ela for é problema dela. se eles se divertem, ótimo; se ele não lhe der atenção, foi o que ela achou melhor. por que homem é incapaz de pedir um fica comigo por favor? eles estão certos. mulher é que tem essa coisa de ler os livros do marido quando ele não está, só para sentir a mesma poesia. faça o que você achar melhor? falta essa reunião e fica aqui até mais tarde. faça o que você achar melhor? escapa do trabalho duas horas mais cedo. faça o que você achar melhor? me beija. faça o que você achar melhor? se jogue da ponte, porra. ela odeia faça o que você achar melhor. faça o que você achar melhor é uma forma sonsa de dizer hoje não vai dar (e ela prefere o hoje não vai dar, diretamente e com todas as letras), é uma maneira cínica de colocar as coisas nos seus devidos lugares. aqueles lugares que ela nunca acha melhor. faça o que você achar melhor é uma promessa de impossibilidades. mas é que mulher tem essa coisa de continuar sentindo.
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6:31 PM
by Bonina
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Sexta-feira, Maio 07, 2004
Rosa dos ventos
Tudo começava soprando. Era um vento que vinha sem dizer de onde, passava pelas casas mesmo com as portas fechadas e avançava sobre as janelas a ponto de quebrá-las. Dava o que fazer até ele se acalmar. Ela prendia os cabelos e começava a reuni-lo. Suava horas seguidas, num esforço descomunal. Com os braços, ia empurrando as pancadas que se voltavam contra ela. O corpo inteiro tinha que usar, às vezes, para que as rajadas não escapassem. As brisas eram as mais perigosas. Pareciam suaves e doces, mas, cínicas, não se podia contorná-las senão com muita firmeza. É que as brisas fogem sorrateiramente, são capazes ainda de olhar nos olhos dela e sorrir enquanto passam pelas brechas, de mansinho. Quando ela via, já estava tomada por aquela mansidão, o pensamento longe, a pele arrepiada, os olhos fechados. Então, era preciso contê-las com severidade. Ela não podia brincar com as brisas. Se fosse para escolher, preferia os tufões. Esses batiam de uma vez, não dissimulavam. Mas obdeciam quando pressionados. Eles sabiam quando não podiam aparecer. Sabiam. Ela tinha consciência de sua força, por isso conseguia controlá-los. Eram imponentes. Ah, como amava a sinceridade dos tufões. Com eles travou suas melhores brigas, seu mais longos desacertos. Rodou no ar muitas vezes, até ser arremessada contra o chão e começar tudo de novo. Erguia os braços com autoridade e corria pelos campos abertos em que devastam os tufões. Terminava exausta. Mas tinha certeza de tê-los alcançado. Trancados num canto da casa, eles brincavam de girar até que ela esquecesse, novamente, o portão aberto. Posso sentir, agora, os passos dela levantando a grama do jardim. Que ventos será que trouxe com ela?
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12:11 PM
by Bonina
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