Saudades da Copa de 2002. Não de ter que acordar às 6h da matina para encarar os jogos na hora do café da manhã, sem petiscos nem uma cervejinha por perto. Nem porque nossos atletas brilhassem mais. Mas tenho saudades das TVs japonesa e coreana. E me pergunto como três países sem nenhuma tradição de futebol conseguiram fazer as duas melhores coberturas de Copa do Mundo de que me lembro: EUA (1994), Coréia e Japão (2002). Faz falta do steadycam dos norte-americanos, correndo com precisão e velocidade nas laterais do gramado, trazendo a imagem viva do esforço dos jogadores, a beleza das arrancadas. Lamento também a ausência dos closes orientais, da câmera fechada nos cabelos esquisitos dos jogadores, nas cores e penteados esdrúxulos, nas chuteiras exclusivas, no olhar dos artilheiros, no corte dos uniformes. A beleza está nos detalhes ¿ e os japoneses, minimalistas que são, sabem muito bem disso.
E, vamos combinar, a melhor coisa dos pacatos 120 minutos de Ucrânia 0 x 0 Suíça era o uniforme amarelo lindo que a Lotto fez para a seleção dos ex-soviéticos. Além, é claro, do goleiro ucraniano, Oleksandr Shovkovskyi, que é uma graça com aquele jeitinho de vocalista de banda indie inglesa. Pena que a TV alemã não saiba disso. Uns dez closes a mais no rapaz teriam tornado a partida muito muito melhor. Até suportável, eu diria.
Aliás, essa copa esteve extremamente bem servida de goleiros. Infelizmente, você descobre que a vida não é justa quando Petr Cech e Iker Casillas ¿ da República Tcheca e Espanha, respectivamente ¿ têm que voltar para a casa mais cedo. Enquanto isso, temos que aturar a cara emburrada do "guarda-redes" reserva dos donos da casa, Oliver Kahn, feio e chato, mas flagrado o tempo todo pelos cinegrafistas.
Cech, considerado o melhor do mundo, ainda levou com ele o lateral Zdenek Grygera ¿ um tão fofo quanto o outro dentro do padrão Puma que tão bem serviu aos tchecos. Mas isso não é tudo, a vida fica ainda mais difícil quando na nossa lateral sobram Cafu e Roberto Carlos. Sobram? Faltam... Pois é, está cada vez mais complicado torcer pelo Brasil.
E quem disse que nessa Copa não teve zebras? A seleção da Argentina, tão popular pelos seus guapos, em 2006 não trouxe nada que valesse a pena os 90 minutos de uma boa peleja. A Itália também não encantou. Talvez a culpa seja do estilo meio cafuçu dos latinos, que anda fora de moda. Essa questão merece um tira-teima dos bons. No fim das contas, resta às torcedoras esperar o duelo entre o patrício Luís Figo e britânico David Beckham.
Por falar nisso, portugueses e ingleses apresentaram dois dos melhores uniformes do mundial 2006. A turma de Felipão veio magnífica. Traja um Puma vermelho-bonina com fios amarelo-ouro que se destaca pelo perfeito equilíbrio de cores. O tom fechado equivale, na estampa, à introspecção lusitana. E o dourado seria, talvez, uma pontinha de inveja dos irmãos pentacampeões. Já os ingleses, vestidos pela Umbro, repetem o bom desempenho de 2002 e são os favoritos ao título de melhor padrão desta Copa.
Novamente, ante a enxurrada de Nikes, Pumas e Adidas, a rival inglesa colocou o melhor time em campo. A Puma de 2006 repetiu o erro da Nike 2002 e criou camisas praticamente iguais para todas as suas equipes. O resultado ficou de primeira, mas cansa pela repetição. Falta certa ousadia no meio de campo. Já a Nike mudou de estratégia e variou os estilos. Teve cem por cento de aproveitamento na pólo laranja dos holandeses, muito mais vibrante que o time, desclassificado por Felipão. Para o Brasil, a empresa trouxe a assinatura de um estilista famoso, mas, como nossa seleção, o uniforme faz apenas o básico. Espera-se sempre mais.
Para quem sabe que a Copa do Mundo não se resume ao esquema tático das equipes, restam os sites especializados, os lances registrados por câmeras exclusivas fora da TV oficial e as fotografias dos jornais. A televisão alemã, conservadora ao extremo, segue tão chata e eficiente quanto seu time em campo. Transmite os jogos sem emoção, com enquadramentos muito abertos, que mostram quase sempre um terço do campo. Deixam de fora da cobertura o brilho do espetáculo ¿ ou, às vezes, o próprio espetáculo.